“Homenagem I” – Noel Fernandes Serturbano

Link para o disco

O que você diria sobre um artista que gosta de fazer músicas sobre compras? No mínimo inusitado, certo? E se ele ainda fizer várias homenagens ufanistas a cidades do interior de São Paulo? Aí então fica mais imperdível ainda, não é? Pra completar, ele tem a língua presa e uns falsetes incríveis.

Conheci este grande artista vagando outro dia pelo Orkut, descobrindo comunidades de artistas obscuros, quando cheguei na comunidade do Noel Fernandes Serturbano. O que chama a atenção primeiramente, é a foto da capa do cd do sujeito: em meio a um fundo todo colorido feito no computador, um mulato (ou seria mameluco? hehehehe) com cabelo metade louro e metade moreno, e uma camisa florida. Dias depois, numa loja do centro de São Paulo especializada em brega e música nordestina, encontrei uma cópia (usada) de seu cd “Homenagem I”. (A pergunta que fica é: para quem é dirigida esta homenagem? E se está indicado que é a primeira, será que houve continuações? Mistério…). A foto do verso do cd também é muito boa, ele sentado num banquinho, todo vestido de vermelho, inclusive com um chapéu vermelho, com uma botina cor de caramelo e segurando um cachimbo em uma das mãos. E na ficha técnica diz que o acopanhamento foi feito com uma “Orquestra de músicos revezados”…. hahahahahaha, ótima!

A primeira música, “Melô do Divulgador” já chama atenção por ele mesmo assumir que acha o disco ruim, dizendo que chegaram pra ele e disseram: “cara, pra disco ruim não tem divulgador bom”. É uma música que evoca o vira português, mas cheio de teclados em um arranjo tipicamente falconiano (* do Falcão, o brega). A letra fala dos percalços pelos quais o artista iniciante passa para divulgar seu trabalho. O refrão diz: “um tal esquema eu vou armar / mas esse disco vai ter que estourar / São Benedito me ilumina / pro bom mineiro não voltar a pé pra Minas”

“Inquilino da Rua” é um pouco mais convencional, uma música de protesto contra a situação dos moradores de rua, e o arranjo é meio sertanejo moderno. O melhor da música é que nela se começa a notar a língua presa do Serturbano, e que mesmo assim, ele não se intimida a dar umas subidas de voz incríveis. Pô, chega a emocionar. “SS-sssooo-ooo-uuu inquilino da rua”. O mistério é o que significa “com direito ao alfabeto”.

“Pérola de Vinho” é a primeira das homenagens ufanistas do disco, neste caso para a grande cidade de Jundiaí, e em ritmo de marchinha. Olha alguns trechos:
“Princesa xodó do barão, meu xodó és tu Jundiaí”
“da Via Anhanguera, tesouro, caminho do ouro,
com chuva ou sem chuva,
paraíso das grandes emoções, das grandes atrações
lá no parque da uva” (repare que chuva rima com uva)

“Campinas em Fá Maior” já chama a atenção pelo ótimo nome (que inclusive já dá uma dica de tonalidade para quem se animar a tirar esta música no violão). Ela começa com versos incríveis: “da manga da camisa o mago tirou um curinga”. Outra dúvida: quem será o Jó que ele fala na música? será o personagem bíblico? Algum amigo? “sonho lindo, cinturão de ouro, meu antigo Jó / vida minha, canto divinal / em Fá Maior” (seria só para rimar com Fá Maior?). E este outro trecho: “papagaio gordo(?) da nossa bandeira / dá o pé, ó nobre ave, nossa compaheira”; além de comparar o verde da bandeira com um papagaio, ainda pede para ele dar o pé? hahahaha. insano! Tem momentos bucólicos e românticos, como quando ele fala do largo do Rosário, “o verde e o beijo roubado por cada casal”. E um dos melhores trechos, com uma das melhores rimas que eu já vi: “Ponte Preta e Guarani em campo / com mutreta ou sem mutreta / um trago feito de Campinas tomo / sem fazer careta”.

“Lousano Paulista, Alegria do Povo” é a música do disco preferida por meu amigo Agnaldo Mori, do National, que diz que quando a ouve “tem que repetir várias vezes”. Muito animada, fala sobre futebol. Seu refrão é ótimo: ele gritando gol, com eco, várias vezes. Grande música!

“Berço da Nossa Esperança” é outra homenagem, agora para Campo Limpo Paulista. É boa, mas não tão inspirada quanto as outras. O legal é que ele usa frases como “nobre torrão varonil”, “fonte do meu lá-lá-iá”, e aí dá-lhe um monte de lá-lá-iás!🙂

“Compras Serturbanas” é muito FODA, uma das melhores! Quando eu ouvi pela primeira vez, tive que voltar umas dez vezes, pois eu não acreditava! A música é rapidinha, a letra é quilométricaUma das coisas mais legais é que quando ele termina uma estrofe, ele fica repetindo uma parte da palavra, e ainda tem os piriri-pó-pó-pó: “comprei tudo de bom na cidade dos artistas / onde eu me apaixono, nos sonhos serturbanos / do meu Campo Limpo Paulista-lista-lista-lista / piriri-pó-pó-pó / piriri-pó-pó-pó / uuuuôoo, piriri-pó-pó-pó / piriri-pó-pó-pó”.
Logo no começo você imagina a cena: ele, num final de semana, pela manhã, saindo todo empolgado, todo apressado, para fazer compras: “numa manhã de sol / com o bolso assim de grana / saí para fazer minhas compras serturbanas”.
A letra é quilométrica, com ele citando vários nomes de comércio da cidade, e fazendo muitas rimas ótimas e impagáveis, como:
“comprei meu sonrisal, lá na drogaria central, e fui lá pro piquenique-nique-nique”
“comprei no Zé Negrão, no Isaque Tec-Com, na Flash Locadora aluguei meu cine bom, Norberto japonês e Oriega Cartuchos, depois do Colchão Nunes fui sentir seu perfume lá no Recanto Gaúcho-úcho-úcho”
Esta música me dá uma certa nostalgia, dos pequenos comércios do bairro…

“Vá com Deus” é a única canção romântica do disco. Uma qualidade do disco é que os temas são variados e inusitados. Repare na segunda voz, em falsete, provavelmente feita pelo próprio Serturbano. E esta música com a participação com um tal de “Divisor” (seria o “Divisor de águas”? hehehehe) De resto, é uma daquelas penosas músicas que falam sobre despedida.

Em “Trio de Ouro”, o Serturbano consegue a proeza de juntar numa mesma música Roberto Carlos, Sílvio Santos e Pelé, respectivamente “canção, sorriso e gol”. E ele recomenda “vamos sonhar e curtir enquanto tem”.

Depois de homenagear várias cidades do interior de São Paulo, vem a homenagem também para a capital com “São Paulo Maluca e Gostosa”, que começa com um insólito e supimpa solo de guitarra. Ele chama São Paulo de “matuta, charmosa e grã-fina”, mas depois ele “acaba” com a cidade dizendo “nos braços do Rio Tietê”, rio este que é um verdadeiro esgoto a céu aberto, fedido até não poder mais. Falando sobre o metrô lotado: “É charme de gente paulista / sardinha na lata iô-iô”.

“Palhaços do Amor” é uma marchinha feita para o Carnaval de 98, e com mudanças de andamento. Ele se vira entre o vocal, backing vocal e os la-lá-iás. Um verso impagável é este: “se entrega de bandeja / num toró de cerveja / com sete serpentinas”

Em “Tô Beleza”, ele conta a ótima história que jogou em uma lotérica de Campinas e acabou ganhando, depois foi ao Líder dos Cabeleireiros, mudou o visual, ficou lindão, e ganhou um monte de fãs e o apelido de Garanhão de Campinas (veja a foto e diga se vc. concorda ou não… hehehehehe). E aí dá-lhe mais propaganda: “comprei na Ótica Áries / pra pagar no futuro / óculos de grau / e óculos escuro”. Ah, e repare no falsete do refrão.

AGORA A MELHOR: “Hortolândia, Uma Cidade em Jundiaí”! Clássico indiscutível do “trash”! Dá uma vontade lascada de conhecer e fazer compras em Hortolândia! Comentei com meu amigo André Fercondini, o “Maza” sobre esta música e ele disse: “ah, é assim mesmo! De fora, você não dá nada, mas depois que você entra lá, parece uma cidade”. Um “poperô” bem fuleiro, um refrão supimpa: “Horto-horto-hortolândia / uma cidade em jundiaí / comprar ali é muito bom / é muito bom comprar ali”, aí ele fala a estrofe, e fala “Hortolândia!” com eco. Alguns versos para o deleite de vocês:
“…comprei barato e qualidade, e ainda fui bem atendido”
“..e na loja Artimanha, comprar ali é um barato, é o freguês que sempre ganha”
“..e fiz uma compra tão boa que até dei um suspiro” (porra! precisa ser um gênio pra fazer um verso como este! quem nunca passou por isso? quando você compra aquilo que vc. estava querendo muito mesmo, é inevitável aquele suspiro! hahahahaha)
“..de janeiro a janeiro, é o freguês que leva a vida”
“..compra se compra lá na padaria Hortolândia, Hortolândia, onde o pãozinho está fresquinho a todo instante”

“Para Não Se Ferrar”, além do ótimo nome, começa com “ótimos” slaps no baixo. É outro ótimo guia de compras de Jundiaí! A língua presa de Serturbano está impecável, além do seu indefectível falsete nos refrões. Olha esse trecho: “É na Ótica Landz e na Ótica Prisma, onde eu compro meu óculos sem nenhuma cisma”.

“Brasil com Cerveja” termina com classe este grande disco. Um ótimo “poperô” sobre os jogos da Seleção, com direito a rojões e ola. “Vai lá, Brasil, vai lá Brasil, dê um nó no corcunda, faça um gol para nós, nem que seja de bunda”

Ah, quase todas as músicas são de autoria dele. Só três que são dele e de mais alguém.

2 thoughts on ““Homenagem I” – Noel Fernandes Serturbano

  1. é a coisa mais dantesca que já vi na TV, e as “bailarinas” são um desastre à parte…tenham misericórdia de nós telespectadores……

  2. Eu sou o Isaac da musica das compras. O Noel Fernandes é uma figura do geito que vc viu ele no cd ele anda pela cidade.

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