Os Amores de um Zumbi

“Os Amores de um Zumbi” (“Les Amours D’Un Zombi”, Arnold Antonin, Haiti, 2009, colorido, digital, 90 min)

Como eu estou escrevendo sobre os filmes na ordem em que eu assisti, esse foi o primeiro grande filme que eu assisti nessa Mostra de 2010, e mostra o porquê de eu garimpar os filmes mais obscuros, acabei assistindo um dos filmes mais engraçados e surreais que eu já vi na minha vida.
Único filme do Haiti nesta Mostra, além de ter um nome ótimo, a sinopse também é muito instigante. Um cara jovem foi assassinado por um senhor idoso que pegou a esposa dele na cama com o cara. Depois de morrer o cara vira zumbi e aparece numa rede de televisão dando entrevista coletiva. Sempre com um saleiro na mão (a lenda diz que os zumbis tem que ficar comendo sal), o zumbi diz, justamente com uma cara de morto-vivo: “eu não quero nada, só quero encontrar minha amada”, e sempre que ele pode, fala o nome da mulher (que agora eu não lembro).
É muito bom e interessante ver um filme de zumbi e vodu feito pelos próprios haitianos, justamente de onde vem essa tradição e folclore, e não por outros, com sua visão já pré-concebida.
Vi na internet algumas críticas descendo a lenha nesse filme, mas tem muita gente que leva as coisas muito a sério, e para quem é fã de filmes trash, B, de baixo orçamento, tosco, mal-feito, estilo Ed Wood e companhia, é um prato cheio!!!
O vodu haitiano tem muitas semelhanças com a umbanda e candomblé brasileiros. Um cara que seria uma espécie de pai de santo do vodu percebe que ter um zumbi ao vivo impressionaria seus clientes. E o zumbi não perde a oportunidade de fazer suas traquinagens e peraltices. O primeiro de seus clientes é um cara que está desconfiado que sua mulher o trai, e lá eles tem a crença que um zumbi é ótimo para vigiar alguém, o cara paga para o pai de santo para poder contratar o zumbi vigiar sua mulher, e não dá outra, o zumbi acaba transando com a mulher do cara. Outro cliente do pai de santo é um político, que ajoelha e pergunta para o zumbi se ele irá ganhar as eleições, o zumbi (depois de mijar no cara (!!!)) fala que ele pode fazer um golpe de estado que irá dar tudo certo. E é claro que não dá e o político vai preso.
Porém, o lado romântico do zumbi fala mais alto, e ele até pede para aparecer na tv e dar outra entrevista, só pra poder falar de sua amada. O povo, que em geral é fã de histórias de amor, faz o zumbi ficar cada vez mais famoso, até virar uma celebridade.
E os políticos não perdem tempo em ver ali uma oportunidade: lançar o zumbi como candidato à presidência da República! Por que não? (Quem não lembrou do Tiririca?)
E aí que entra o barão do cemitério, que também está apaixonado pela mesma mulher, e que exige que ele escolha entre a candidatura ou à mulher amada, no que ele escolhe a mulher. O barão e seus asseclas, espíritos que ficam rondando pelo cemitério, tem um covil cheio de caveiras e velas, e ambientado de forma bem sinistra, mas apesar disso eles estão mais pra turma do Penadinho do Mauricio de Sousa do que qualquer coisa, e isso é um ponto positivo. Foi uma volta à infância, pois quando eu era criança eu achava muito divertido esses lances com caveiras e tal. Tem uma hora que o barão do cemitério, que é um baixinho meio velho de fraque, cartola e bengala, está assistindo a televisão, que está em cima de um túmulo, e em cima da televisão tem um crânio e dentro do crânio uma vela, e na televisão está passando futebol, e ele fala “vai Robinho”, o do Brasil, no que eu me lembro a vez que o Brasil foi jogar futebol lá no Haiti, acho que ganhando de 5 a 0, mas a alegria do povo de lá foi imensa por ver ídolos brasileiros como Robinho, Ronaldo, Ronaldinho.
A maioria das mulheres no filme são negras muito bonitas, tanto de rosto como de corpo, muito bom gosto o do cineasta.
E pra não dizer que não fiz nenhuma crítica, não gostei do final, que é confuso.
Como algumas críticas ressaltaram, o filme realmente tem um lado político, mas é feito com muito bom humor ao contrário da maioria dos filmes políticos, só que um dos lados polít
icos que eu acho que pouca gente percebe é ter orgulho de sua tradição e folclore vodu, e ajudar a divulgar e mantê-los, bem diferentes de filmes como “Impacto” do Vietnã, que eu também assisti nessa mostra, que só quer imitar os filmes hollywoodianos, mas claro que sem o mesmo talento.
Ao assistir esse filme me fez lembrar de uma banda de ska-core muito boa, eles tocam bem rápido, diferente da maioria das bandas de ska-core, e com muitos arranjos de metais bem criativos, e eu havia ouvido uma música há muito tempo, e que havia procurado o disco e não encontrado, Voodoo Glow Skulls, cuja temática e arte dos discos é toda homenageando o vodu. Porém, com as facilidades da internet, agora estou ouvindo o ótimo disco “Baile de Los Locos”.
Ah, a Mostra e o Mubi disponibilizaram alguns filmes para assistir on-line, mas para um número limitado de acessos: http://mubi.com/films/34289
E também procurem ouvir o disco “Baile de Los Locos” do Voodoo Glow Skulls. (Excelente/Clássico)

PS: Uma crítica sobre o “Amores de um Zumbi” que eu gostei foi uma que comparou o trabalho desse cineasta com o cinema filipino em geral, pois ambos fazem um cinema que não tem vergonha de ser de terceiro mundo, e não tentam emular ser o que não são: http://almanaquevirtual.uol.com.br/ler.php?id=25784&tipo=23&tipo2=almanaque&cot=1

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