Antônio Marcos

Intérprete intenso, visceral, com uma ótima voz, letras profundas, poéticas e até apocalípticas. Dizem que sempre aparecia bêbado nos programas de TV, e parece que foi o álcool que o vitimou. Muitas músicas melancólicas e com arranjos ótimos, tem músicas em que é difícil não se emocionar.

“Oração de um Jovem Triste” – Lembra bastante King Crimson, a primeira vez que ouvi esta música, voltei umas cinco vezes nela. A música começa com um órgão bastante sombrio, e vai entrando a bateria e o baixo. A letra é religiosa e melancólica, “sempre tive tudo que quis, mas te confesso, não sou feliz”. Baixo e bateria criativos e com timbres ótimos, ótimas viradas; tem um som que parece ser mellotron, tem um timbre ótimo, mas de uns tempos pra cá quase não foi mais usado, muitíssimo melhor do que o strings do teclado. Guitarra dissonante e distorcida quando ele canta: “calça apertada, de cinturão, toco guitarra, faço canção”. Assim como “Homem de Nazaré” esta música também fala de Jesus Cristo. “Cabelos longos, iguais aos meus, tu és o Cristo, filho de Deus”.

“Gaivotas” é uma das melhores músicas. Tem um instrumental mais ameno, violões, barulhos de mar, de barco e de gaivotas, a letra é uma linda poesia, com muitas metáforas sutis. A música lembra o balanço de um barco em um mar calmo. “Meu corpo balança sobre as águas, e o olhar se afoga em meu pranto, é que eu bem distante lá da terra, não compreendo gente que maltrata e erra”. Depois ele canta com uma calma melancolia “tantas mágoas, tantas frustrações, eu vou deixar neste mar, quando anoitecer”. A letra pode falar tanto de um passeio de barco, como pode ser uma metáfora sobre a vida. Tem um trecho que lembra o meu primo Eduardo, que era alguém que tinha muitos problemas, tinha várias tristezas interiores, mas sempre procurava animar as pessoas que estavam ao seu redor, principalmente da família, quase impossível não me emocionar quando eu o ouço: “e lá em casa, ninguém vai saber, quando eu chegar, vou sorrir, e adormecer”. Ele vê uma gaivota, e fica pensando se ela sabe “que o amor se perde por dinheiro, e o homem se destrói no mundo inteiro”. Fico pensando nas pessoas que mesmo com tristezas e problemas, procuram sempre trazer alegria para as pessoas. E de como estas pessoas sensíveis devem sofrer com esta brutalidade e frieza do mundo.

“Por que choras a tarde” é uma bonita música romântica, que tem um dedilhado que lembra o dedilhado da música “Quero ter você perto do mim” do disco de 1969 do Roberto Carlos (uma das músicas do Roberto que eu mais gosto)

“Homem de Nazaré” praticamente todo mundo conhece, mas não confundir com a ridícula versão que o Chitãozinho e Xororó fizeram. Esta tem um arranjo suntuoso, típico dos anos 70, onde se destaca o som grave e lento da bateria marcando, e o início em que ele fala, imponentemente “Mil, novecentos e setenta e três”. Um dos melhores trechos da música é quando fica só bateria e voz.

“Menina de Trança” é uma música que não me chama muito a atenção, mas tem uma bonita melodia e umas percussões muito bem colocadas.

“Sonhos de um palhaço” tem um baixo impressionante, escute e comprove. A letra diz “e tem gente que diz que no circo o palhaço é apenas o ladrão do coração de uma mulher”. Esta música tem umas pequenas afetações na voz, que lembram um pouco o Elymar Santos, mas nada muito compremetedor.

“Volte Amor” faz plágio de alguma melodia que eu não consigo dizer qual é, mas consegue um feito raro, consegue colocar aquelas recitações sem ficar ruim, e melhor, é uma garota que faz a recitação, com uma voz deliciosa. “Meu mundo aqui se resume na lembrança dos dias felizes de nosso amor. A rosa que você me deu eu ainda guardo, mas deve ter murchado entre as páginas de um livro que eu não consigo mais ler”. Esta música é uma daquelas interpretações “paranormais”, como diz meu amigo Hugo, ele implora desesperado: “será que não entende? o mundo segue em frente, o tempo não esperará, volte amor”. E tem uma batida forte na bateria. Muito boa!

“Se eu pudesse conversar com Deus” é outra boa música religiosa do Antônio Marcos.

“Boneca cobiçada” é versão de uma música da velha guarda. Esta música não me chamou muito a atenção. Mas o legal é que eu lembro que o Seu Correia chamava a vocalista de uma banda que eu tive, a Jane, de “Boneca Cobiçada”, nome ótimo de música.

“Como vai Você” é uma das mais conhecidas e regravadas músicas do Antônio Marcos. As regravações que eu ouvi ficaram muito boas: Roberto Carlos (previsível, quase o mesmo estilo), Nelson Gonçalves (um espetáculo! Ficou ótima com aquele vozeirão, e num ritmo um pouco mais lento), Daniela Mercury (surpreendentemente ficou boa, só voz e violão). Uma das mais bonitas músicas de amor que eu já ouvi. “Vem, que a sede de te amar me faz melhor, eu quero amanhecer ao seu redor, vem que o tempo pode afastar nós dois, não deixe tanta vida pra depois, eu só preciso saber…. como vai… você!!!”

“Quem Dá Mais” tem uma das letras mais psicodélicas. Já começa com ele dizendo “eu preciso me ver em 1996”. Por que exatamente 1996? E é estranho para nós, porque 1996 já passou faz tempo. E a viagem não pára por aí, depois melhora, ele diz “outro dia sonhei que estava numa arena gigante, era eu o mais raro objeto vendido em leilão”, aí cria um crescendo ótimo, em que ele vai dizendo: “e eu olhava tudo calado, e eu ouvia os preços gritados” até o refrão, dos mais lindos, puros e emocionantes que eu já vi, algo que eu admiro nele é a coragem de cantar coisas simples, mas não menos belas e profundas: “quem dá mais por um cara que ousou acreditar nos seus, quem dá mais por um homem que insiste na palavra Deus, quem dá mais por um louco que discorda do computador, quem dá mais por um velho ultrapassado que ainda crê no amor”

“Você pediu e eu já vou daqui” é uma ótima música romântica bem triste, o melhor trecho é quando ele diz: “o meu perdão eu vou saber lhe dar, e jamais direi que um dia você conseguiu me magoar”, e o instrumental fica bem dramático nessa hora. “Se você quer eu vou embora, mas sei que não demora, você é criança e vai chorar”

“Vamos dar as mãos” ficou mal vista pelo fato do refrão ser banal, de certo ponto de vista. Mas ouvindo a música inteira, é uma música existencialista e apocalíptica, e uma das mais lindas mensagens pedindo a união das pessoas. Começa com um som de guitarra forte e agudo, e com ele cantando imagens fortes sobre o fim dos tempos: “antes do pano cair, antes que as luzes se apaguem, todas as portas se fechem, todas as vozes se calem, todos os olhos chorarem, antes que o dia anoiteça, e nunca mais amanheça, antes que a vida na Terra desapareça, vamos dar as mãos, e vamos juntos cantar”. Um dos melhores momentos é quando fica só uma batida forte de bateria e a voz cantando o refrão. Temos que nos unir e fazermos o bem uns aos outros, “antes que seja tarde”.

A última música que está sem nome aqui, tem arranjos ótimos de guitarra, naipe de sopros, quarteto de cordas e coral, fortes, precisos e vigorosos.

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