Bartô Galeno

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Na minha opinião, o melhor cantor do brega! Existem vários outros bons cantores de brega, mas poucos são tão passionais quanto Bartô Galeno. Conheci a música de Bartô Galeno em um dos momentos mais difíceis da minha vida: o término de um namoro de três anos e meio. Foi uma combinação perigosa, pois a música de Bartô Galeno é uma das mais passionais de todo o brega; e a noite foi longa, não conseguia dormir lembrando trechos das músicas: “o que foi que fizeram com ela, que ela chorou?” (Sorriso de Moça), “e eu sei que não vou ser feliz nunca mais” (Só Lembranças), “quando agora for passado, vou lembrar que fui coitado” (Sorriso Forçado).
Porém, hoje em dia, ouço-as sem o sofrimento de outrora, mas claro que quase sempre com uma vontade de beber. São músicas lindíssimas, apesar de algumas serem bastante tristes. Bartô Galeno é uma epítome do brega, o meu cantor preferido de brega, com ótimas músicas e arranjos somadas a uma excelente voz e uma interpretação passional.
A sua temática é quase sempre a dor de corno, e musicalmente está na vertente das baladas românticas.
Por causa de seu acentuadíssimo tom passional, não é de fácil assimilação por todos que gostem de músicas românticas, como é o caso do Amado Batista, mais pop, e por isso mais aceito.
Interessante que a sua música, além de toda a deprê associada, também causa uma espécie de torpor.
Em um boteco aqui perto de casa, o Boteco do Toninho, foi onde aprendi muito sobre o brega, e o dono além de ter muitos vinis do Bartô, também teve a oportunidade e a honra de abrir um show do mestre.

O clássico: No toca-fitas do meu carro

Antes de eu comprar, fazia um tempo que eu havia ouvido uma frase do refrão de sua música mais famosa numa propaganda daquelas coletâneas de músicas dos anos 70, e ficava repetindo e irritando as pessoas mais próximas, por só saber aquela frase, mas que eu sabia, era um dos maiores clássicos do brega: “No toca-fitas do meu carro”. Eu fiquei impressionado: que nome de música genial!
Na primeira estrofe já aparecem algumas imagens que nos levam direto aos anos 70: um carro, que provavelmente deve ser algo como um corcel, um toca-fitas, o cigarro:

No toca-fitas do meu carro,
Uma canção me faz lembrar você,
Acendo mais um cigarro,
E procuro lhe esquecer

A dor aumenta quando ele constata que o banco do passageiro está vazio, e essa ausência só faz seu amor aumentar:

Do meu lado está vazio
Você tanta falta me faz
E cada dia que passa
Eu te amo muito mais

Até aqui, é uma música romântica tradicional, somente com algumas imagens peculiares a distinguindo. Porém, é a próxima estrofe que caracteriza um brega autêntico, onde o cantor não se contenta em lembrar da pessoa amada, ele quer saber é de sofrer pra valer, colocar o dedo bem fundo na ferida:

Encontrei no porta-luvas,
Um lencinho que você esqueceu
E num cantinho bem bordado
O seu nome, junto ao meu

A manguaça

Em um boteco aqui perto de casa, o Boteco do Toninho, foi onde aprendi muito sobre o brega, e o dono além de ter muitos vinis do Bartô, também teve a oportunidade e a honra de abrir um show do mestre.

Show em Serra Pelada

Outra história engraçada que eu li numa entrevista sua foi uma que, quando ele foi fazer show no garimpo de Serra Pelada, numa altura do show, o pessoal começou a atirar para o alto, Bartô que ficou com medo e perguntou para o organizador do show o que era aquilo, que respondeu: “fica tranqüilo, Bartô, se eles estão atirando é porque estão gostando”.

Tristeza, sofrimento e tragédia

Bartô Galeno tem músicas que parecem Joy Division parecer brincadeira de criança. “Sorriso de Moça” é um dos melhores exemplos. Num arranjo todo em acordes menores, a música fala do sofrimento de uma menina inocente que entregou todo o seu amor, e hoje é uma mulher desiludida e vítima de uma maldade: “O que foi que fizeram com ela que ela chorou / ela era feliz e cantava cantigas de amor / hoje vive calada e tão triste num canto sozinha / nem parece a moça bonita que ontem sorria / Seu sorriso de moça bonita / alguém carregou / ela hoje é mulher / e a vida já não tem valor”.

Outra música, que apesar de também trazer sorriso no nome, é uma das suas mais tristes e belas canções, é “Sorriso Forçado”. A música começa com ele dizendo que “quando agora for passado, vou lembrar que fui coitado”; porém, traz uma esperança típica dos românticos, “meu sorriso que é forçado, vai ser livre e demorado, pois a vida que eu sonhei, eu sei que vai chegar”. Fala da mulher que sorri agora, enquanto ele chora, mas um dia chegará sua vez de também sorrir, isso com um lindo solo de cordas e oboé ao fundo: “Você sorri de mim agora, se esquecendo que no amanhã, quem hoje vai chorando embora, também terá motivos pra sorrir”.

Uma espécie de resposta à música da Pitty que diz que “memórias, não são só memórias”, “Só Lembranças” diz: “só lembranças, só lembranças, só lembranças, e nada mais”. É um ótimo exemplo de ultra-romantismo, trágico e irreversível: “Nos braços de outra qualquer, eu procuro me esquecer de quem me fez infeliz, mas eu sei que não vou ser feliz nunca mais, vai lembrança pra longe pra ver se eu consigo outra vez minha paz”.

Mas, talvez sua música genialmente mais trágica e concisa seja Você Vai Partir: “Você vai partir, e eu vou ficar aqui, e aqui vou me acabar”.

Uma música que tem uma letra das mais bonitas é uma que chama “Palavras Perdidas”, em que ele além dele cantar a genial frase “eu tenho medo, mais do amor do que da morte”, ele também critica as pessoas que apenas falam de amor, pois isso é fácil, o difícil é que as palavras sejam sinceras: “tenho medo que sejam mentiras estas suas palavras”, “falar de amor é muito fácil, pois todos falam, são palavras perdidas que você fala e logo se esquece”.

Romantismo

Nem só de tristeza são feitas as músicas de Bartô Galeno. Elas também retratam o quanto é doce e gostoso estar apaixonado, onde ele chega ao ponto de dizer que quer ver a mulher acordando despenteada; pense o quanto precisa estar apaixonado para querer algo assim? É paixão pura.

“Momentos coloridos”: “Quero, quando chegar o amanhã, ver em meus braços, você despenteada, sorrindo feliz”.

“Você”: “Você que é pura de carinho, que está no meu caminho, no meu jardim você entrou, “, e no refrão: “Você, minha querida, minha amiga, minha vida, você, que em sua boca me mostrou o céu, você que tanto envolve a natureza do meu ego, você que é minha musa, que é meu se e é meu por que”.

“Eu quero”: “Eu quero, ver o seu corpo rolando na cama / eu quero ouvir você dizendo que me ama / eu quero em seus braços me perder / eu quero, ver amanhã na minha despedida / olhar você despenteada e ainda mal vestida / me abraçando e me pedindo pra ficar”.

A letra de “Imensa Euforia” mostra o que é de verdade um amor: “quero te dar o mundo em forma de amor, tudo farei para que não sintas uma dor”.

Desespero

“Esta Noite eu Preciso Te Amar” mostra um Bartô Galeno mais desesperado que noivo em festa de casamento, esperando a noite de núpcias: “deixa eu tocar o seu corpo na cama / pra ver você dizer que me ama / deixa, deixa eu sonhar / deixa eu fazer dos seus braços meu ninho / e esquecer que vivo sozinho / esta noite eu preciso te amar / quero, esta noite ter você ao meu lado / e viver os momentos sonhados / esta noite eu preciso te amar”.

A melhor música: “O Grande Amor da Minha Vida”

Tem todos os elementos de um bom brega: é cantada a plenos pulmões, fala da desgraça de não ter a mulher amada, como seria bom estar com ela, e culpa o destino por essa desventura: “se eu pudesse neste momento estar contigo meu amor / nesta hora eu não seria um sofredor / eu seria o homem mais feliz do mundo / mas o destino a cada instante me separa de você / deste jeito eu sei que vou enlouquecer / na sua ausência, vou morrer na solidão”. E pra fechar, ainda tem uma recitação: “Amor, não consegui gostar de mais ninguém. E sabe por que amor? Porque você é o grande amor da minha vida”. Simples e perfeito.

“Não Vou te Perdoar”: a questão do perdão na música brega

No brega, na maioria das vezes a traição não é suportada e nem perdoada, pois isso demonstraria fraqueza e até diminuição da masculinidade e virilidade do traído. Porém, pouquíssimas músicas falam com tanta precisão da questão do perdão na traição quanto em “Não vou te perdoar” de Bartô Galeno. A música também fala da vergonha que a traição causa, que seria pior que o ciúme. Mas no último verso, ele acaba cedendo, e a perdoa.
Preste atenção no ótimo arranjo, uma balada muito melancólica, com um phaser ou chorus muito legal na guitarra, que cai como uma luva para a letra extremamente angustiada:

Não Vou te Perdoar (Bartô Galeno)

Quando eu soube que você
Se envolvia com outro alguém
Eu senti uma coisa estranha
Não foi ciúme, foi vergonha

Pois eu nunca imaginei
Que você agisse assim
Quase não acreditei
Que bobo eu fui, pobre de mim

Nossas brigas passageiras
Me levaram a acreditar
Que durante a vida inteira
A gente fosse se amar

Não consigo entender
É difícil de aceitar
Atitude como essa
Chega mesmo a revoltar

Não sei se vou te perdoar
Eu não vou te perdoar
Não sei se vou te perdoar
Eu não vou te perdoar

…Mas eu vou te perdoar

Desgraça

Em “Nesta Casa Onde Morou Felicidade”, além de um casamento desfeito, a desgraça é maior porque seus filhos não querem ouvi-lo nem como amigo.

Letras curiosas

Uma das suas letras mais criativas e curiosas é “Lembranças do Rei”, que é feita inteira somente com nomes de músicas do Roberto Carlos, uma das suas maiores influências:

Malena, esqueça dele meu bem,
Quero ter você perto de mim,
Os velhinhos querem acabar comigo
Ninguém vai tirar você de mim

É papo firme, eu te amo, te amo, te amo
Eu estou apaixonado por você
O diamante cor-de-rosa, minha senhora
É meu, é meu, é meu

Tudo que sonhei, nada vai me convencer
Amigos, amigos, ciúme de você
Não quero ver você tão triste
Você é linda, não adianta nada

Não há dinheiro que pague
Ternura antiga

Em “Ela Não Vem”, diz “Que bom seria, se meu bem chegasse agora, bem suadinha e se jogasse nos meus braços”

Carro Hotel

Bartô Galeno tinha uma fixação com carros em suas músicas. Além do clássico “No Toca-Fitas do Meu Carro”, há também “Carro Hotel”, uma engraçada descrição de um carro muito brega.
O começo da letra parece ter sido inspirada em “Calhambeque” do Roberto Carlos:

Pra vocês que não conhecem o meu carro
Vou decifrar mais ou menos como ele é

Depois ele faz uma descrição detalhada de todos os apetrechos do carro:

Tem toca-fitas, ar refrigerado e televisão
O meu carro é uma tremenda mansão

E no refrão, simplesmente genial, ele diz que o carro serve perfeitamente como motel:

Carro-Hotel, banco e cama
A gente ama, Olhando o céu

Depois vêm mais acessórios, e com aquela falta de modéstia que também aparece em “Calhambeque”:

Rodas cromadas, pneus tala-larga,
Faróis alto e baixo, teto solar
E é por isso que as gatinhas se amarram
E todas querem no meu carro passear

Outra música versando sobre o assunto carros e velocidade, só que aqui juntamente com os temas amor e morte, quase onipresentes em sua obra, é “Saudades de Rosa”, em que ele diz, com barulhos de carros acelerando ao fundo: “eu ontem tive tanta sorte, a malvada da morte andou perto de mim, eu no meu carro dei bobeira, numa brincadeira quase levo o fim, andava a toda velocidade, pra superar a saudade que andava junto a mim, esta saudade era de Rosa, (…) compreendi que estava errado, que não se deve morrer por amor”.

Timbres e Arranjos

Praticamente todas as suas músicas tem ótimos timbres, tanto de baixo, bateria, quanto de guitarras, cordas e sopros. Porém, algumas das músicas se destacam, com relação aos melhores arranjos:

“Quem ama tem ciúme” tem um solo espacial de sintetizador, bem típico de rock progressivo dos anos 70; impressionante, e impagável. A música é uma balada como a maioria das outras, mas na hora do solo, o som fica de uma loucura só.

Em “Você Vai se Arrepender” vemos Bartô Galeno botando pra quebrar em um funk-soul que não fica devendo em nada aos mestres do estilo. Mostrei para um amigo que é grande conhecedor e admirador de música black, que gostou tanto da música que pediu pra repeti-la umas três vezes.

“Vou Tirar Você Daqui” é um soul à la Roberto Carlos dos anos 70, mas tem um solo estrambólico de sintetizador que não fica nada a dever a Rick Wakeman.

A seqüência de “quase-rocks”: “Esta Noite Eu Preciso Te Amar”, “Coisas da Vida” e “Nosso Amor Já Morreu”.

A linha de baixo de “Você me Pertence”.

Atualmente

Bartô Galeno continua lançando discos, e embora não tenha mais a mesma voz, hoje já curtida por anos de cachaça, e os arranjos das músicas não serem tão bons quanto antigamente, as músicas continuam emocionadas e apaixonadas, muitas sendo dramaticamente exageradas, como um bom brega deve ser.

Os discos “Bartô, Simplesmente Bartô” e “Acorrentado a seus pés” são também recomendados aos fãs do brega. Em “Amor Caliente”, ele diz: “vou colocar o seu nome na chave do carro, vou me tornar refém da suíte de luxo do vigésimo andar do seu coração”, e em outra ele diz “é muito bom, é muito bom, beijo na boca com sabor de hortelã”. O seu filho que também está seguindo a carreira de cantor, com o nome de Bartozinho Galeno, tem uma voz boa, e compôs uma música muito boa para o disco.

3 thoughts on “Bartô Galeno

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