36ª Mostra 2012, vários (I)

Elegia Moscovita

Bonita homenagem do russo Sokurov ao também russo Tarkovsky. É uma espécie de documentário poético e feito com muito carinho, e como o nome diz, não pode deixar de ser triste por ser uma Elegia. ***

A Colônia

Esse filme é barra, 80 minutos sem diálogos apenas documentando o cotidiano de uma colônia para pessoas com problemas mentais, sem música apenas o som ambiente, algo muito tedioso, o que salva o filme do desastre total é a bela cena final, mostrando em close os rostos sofridos da colônia ao som de uma linda versão de Ave Maria. *

Eu Não Estou Morto

Feito por um professor de filosofia de ascendência arábe morando na França mostra um estudante de filosofia de ascendência árabe que tem uma amizade e admiração recíproca por seu profesor de filosofia, este de ascendência européia. Quando o professor morre, ele encarna no corpo do seu aluno, o que causa muita confusão em todos. Tem a participação da atriz portuguesa Maria de Medeiros, que inclusive participou do Pulp Fiction como a mulher do Bruce Willis. Filme relativamente bem convencional, mas bem feito. **

Andrey Rublev

Este foi o primeiro filme do cultuado Andrey Tarkovsky que assisti, e ainda tive a sorte de assistir na tela gigante do Cinesesc: saí depois das três horas filme em êxtase. Andrey Rublev foi um grande pintor de ícones para a igreja ortodoxa na Idade Média, porém este não é o ponto mais importante do filme, inclusive porque não existe quase nenhum dado histórico sobre esse pintor. Algo que chama muito a atenção é a reconstituição primorosa da Idade Média. Tive a sorte de assistir este filme na tela gigante do Cinesesc, que tornou a experiência inesquecível, das quais alguns pontos altos foram as seguintes:

A cena em que o padre descobre que estão fazendo bruxaria nas redondezas, homens e mulheres correndo nus pela floresta com tochas de fogo, a música hipnótica é perfeita para o clima onírico da cena, o padre começa a se deixar levar ao observar e uma loira lindíssima (é russa, né? rs) e nua começa a provocá-lo, nesta cena inteira percebe-se a genialidade do cineasta.

A cena em que a vila e a igreja são atacadas pelos tártaros (lembram japoneses) também é um espetáculo, achei mais impactante que a cena do ataque em “Encouraçado Potemkim”, inclusive gostei mais de “Andrey Rublev” do que o “Encouraçado Potemkim” e do que “Cidadão Kane”, que são considerados os melhores filmes de todos os tempos.

A parte final onde mostra um garoto que é um filho de um sineiro morto e que diz conhecer o segredo para se fabricar sinos, o épico e grandioso empreendimento para se fabricar o sino, e a apreensão do garoto por estar envolvendo tanta gente naquela tarefa, e como o garoto lida ao se ver de uma hora para outra com tanto poder.

A cena da Paixão de Cristo, poética e que parece estar meio fora do tempo também é muito boa.
*****

O Ultraje 2 – Beyond

Seqüência do violento e divertido “O Ultraje”, também do Takeshi Kitano. É um pouco menos violento e divertido do que o primeiro, mas ainda assim é muito bom. O próprio cineasta como ator principal, o Takeshi Kitano como Otomo é um dos pontos altos do filme. Assim como no primeiro a história é de mafiosos, suas traições e lutas pelo poder. Ao mesmo tempo que é muito bom por retratar bem os mafiosos, ainda o faz com humor, com personagens que beiram o caricato e exagerando em como é engraçado japonês falando quando está nervoso. Ainda tem alguns requintes de crueldade como no primeiro: deixa um mafioso preso numa cadeira levando bolas de baseboll na cara jogadas por uma máquina automática; perfurar um cara com uma furadeira. ****

O Filho Querido

O cinema oriental, no geral, é interessante. Porém, este filme de Taiwan bate na trave; mostra uma mãe superprotetora que quer arrumar uma esposa para o filho num lugar onde picaretas arrumam mulheres para casar pela internet. Tem algumas cenas e situações boas, mas não mostra muito pra que veio, o final não tem muito sentido. **

O Espelho

Também do Andrey Tarkovsky, porém bastante diferente de “Andrey Rublev”, o que este tem de épico e grandioso, “O Espelho” tem de pessoal e minimalista, onde o cineasta conta suas recordações de infância sem ordem cronológica e de um jeito bem poético e surreal. Gostei mais do “Andrey Rublev”. ***1/2

Carlos André, “Coletânea com 25 Sucessos”

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Presentão para os fãs do autêntico brega de raiz! Só clássicos, de um dos maiores cantores do brega.
Segue a lista de músicas:

01 – Se Meu Amor Não Chegar
02 – Traz Mais Uma Cerveja
03 – Vou dormir no chão
04 – Vou devolver a cama
05 – Não fale mal de mim
06 – Cadeira Vazia
07 – Pode zombar
08 – Esta mulher já foi minha
09 – Despedida
10 – Coração Mentiroso
11 – Toma Juízo Mulher
12 – Aquelas cartas de amor
13 – Amor vagabundo
14 – Foi por amar demais que eu chorei
15 – Guarânia da Saudade
16 – A Telefonista
17 – Castelo de Sonhos
18 – Janira (com Adilson Ramos)
19 – Se meu amor não chegar (com Reginaldo Rossi)
20 – Mulher e Cerveja (com Lindomar Castilho)
21 – Vinho no Gelo (com Fernando Mendes)
22 – Cadeira Vazia (com Bartô Galeno)
23 – Até mais vê (com Flávio José)
24 – Eco do meu grito – De que vale a minha vida agora (com Nilton César)
25 – Siboney (com Alcymar Monteiro)

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Pérolas do Brega, “Casal 2000”, Cristiano Neves

Esta letra é uma enorme inovação na música brega, onde ao invés da muito amarga dor de corno, assassina e mancha indelével na biografia do macho tradicional, vemos um casal antenado com as tendências mais de vanguarda existentes: o relacionamento aberto e sem ciúme. Repare no trecho extremo: “Quando fui num dia desses \ Vi uma coisa engraçada \ Ela saiu à tardezinha \ Só chegou de madrugada \ Fumando e falando gíria \ Só acredita quem viu”. Inimaginável em um brega antigo e tradicional.

Casal 2000
Cristiano Neves

Eu e minha namorada
Somos um casal decente
Não mandamos um no outro
Somos muito independente

Se eu ver ela com outro
Não ligo, nem falo dela
Se ela me ver com outra
Pisca e fica na dela

Quando fui num dia desses
Vi uma coisa engraçada
Ela saiu à tardezinha
Só chegou de madrugada

Fumando e falando gíria
Só acredita quem viu
Somos um casal danado
Somos um casal 2000

Somos um casal 2000
Sem ciúme e sem intriga
Um casal muito pra frente
Um casal assim não briga

A gente sai pela noite
Bebe e traça mais de mil
Somos um casal danado
Somos um casal 2000

Mestre Cupijó, Sons da Amazônia

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01 – Pout-Pourri
02 – Mambo do Martelo
03 – Marica
04 – Mambo do Macaco
05 – Pra dançar meu siriá
06 – Mingau de açaí
07 – Siriá Quente
08 – Caboclinha do Igapó
09 – Eu Quero Meu Anel
10 – Morena do Rio Mutuacá
11 – Farol do Marajó
12 – Samba do Matapi
13 – Sereia
14 – Ventinho do Norte
15 – Mambo do Peão
16 – Despedida
17 – Tubarão Branco
18 – Menina Chorona
19 – Lúcia

Coletânea, “Nóis é Brega Mais é Jóia”

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Não se engane com essa capa tão tosca e pobre! Esta é uma das mais sensacionais coletâneas bregas!
(Pensando bem, no brega, quanto maior a tosquice e a fuleiragem, melhor!)

Tem de tudo um pouco:
O sax envenenado de “Não Toque Esta Música”, o clássico “Placa de Venda” de Maurício Reis que foi regravada pelo Falcão, o brega de teclado de qualidade de Zezinho Barros.
Porém, nada pode te preparar para o pior (!!!) (ou melhor?) tecladista de todos os tempos, nas faixas de Carlito Gomes, um teclado com um som horrível de trumpete, bem alto, bem na frente, com “Paraizo do Céu” (com z mesmo), em que apesar da música ser tão triste (conta o assassinato do pai dele, e o irmão dele quando viu o seu pai morto, foi logo fazer a “vingação”), a gravação é ao vivo e ele pede: “quero ver a galera comigo”.
Cristiano Neves, um dos melhores seguidores de Amado Batista com “Costureira”, “A Solidão e o Desejo” e “Tente Mais Uma Vez”, esta última uma mistura de Raul Seixas com a música da “Praça é Nossa”, só ouvindo pra conferir.
Juca e Jeca, num surreal e inacreditável tecno-caipira de raiz!

Superpop, “Superpop 03/2011”

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Este cd é daquela que é considerada a melhor aparelhagem de techno-brega de Belém do Pará.
Os DJs de tecno-brega são diferentes dos que estamos acostumados a ver aqui em São Paulo, porque lá eles falam no meio das músicas, e muito.

Este cd é de um show em que eu estive quando fui agora em março, nas minhas férias, pela segunda vez (a primeira vez foi a trabalho) para Belém do Pará. E eles tem um esquema muito legal: eles montam o cd no próprio show, prensam algumas cópias na hora, e próximo ao fim do show, ficam uns caras no meio da platéia vendendo os discos que acabaram de sair do forno.

Da primeira vez que eu havia ido para Belém, o amigo que conheci lá na empresa, o Shirlon, já havia me dado um cd de tecnobrega, também do Superpop. Eu já havia ouvido o cd praticamente até furar, pois era muito bom. Porém, o novo disco está muito melhor ainda.

Com absoluta certeza, o tecnobrega é disparado uma das coisas mais interessantes feitas na música popular do Brasil atualmente. Alguns outros estilos que têm forte apelo popular no Brasil são: sertanejo universitário, axé, pagode. Em nenhum desses estilos se vê a vitalidade e a independência que se vê no tecnobrega, exceto no funk carioca, inclusive este disco têm algumas faixas de funk carioca, tocadas pelos djs Elisson e Juninho.

O pessoal do tecnobrega entendeu bem, mesmo que inconscientemente, as lições do tropicalismo e da correspondente antropofagia, pois eles se apropriam, deglutem e transformam a influência estrangeira, misturam com algo tradicional, regional, como é o caso, pois o que eles fazem, a grosso modo, é misturar alguns dos ritmos tradicionais do Pará, como o calipso (o ritmo não a banda, mas pela banda dá pra perceber semelhanças entre o tecnobrega e a Banda Calypso: geralmente são mulheres que cantam, as batidas são parecidas e o que seria solado na guitarra e feito nos sintetizadores), guitarradas e carimbó, além de fazerem versões em português de músicas americanas de sucesso do momento.

Agora, o pessoal do rock brasileiro, em geral, não entendeu bem as lições do Tropicalismo: receberam a influência estrangeira, mas ao invés de fazerem como fizeram alguns índios quando os europeus chegaram (ou seja, o canibalismo), preferiram apenas aceitar a verdade vinda de fora como a verdade absoluta e passaram a idolatrar o rock vindo de fora, sendo assim, qualquer modificação ficava terminantemente proibida. No que o Wander Wildner ironiza, com razão, dizendo que os punk brasileiros querem imitar os punks ingleses se vestindo todos de preto, porém lá um dos principais motivos para eles se vestirem de preto porque lá é um frio
do caramba, e aqui no Brasil, com um calor tropical, o pessoal fica cozinhando em uma roupa preta. E para prezar a liberdade do punk, seria uma boa idéia ele se vestir colorido aqui no Brasil.

Bom, depois de tanto teorizar, vou falar um pouco sobre como é o show da aparelhagem Superpop: o lugar fica abarrotado de gente, os caras provavelmente são os maiores ídolos atuais de Belém do Pará, os DJs Elisson e Juninho. O show começa com outro DJ, menos conhecido, que serve para aquecer o público como se fosse uma banda de abertura. Lá pela meia noite, entra o DJ Elisson, no que o pessoal vibra muito, e o som fica bem mais alto.

O lugar onde os DJs ficam num lugar que parece uma nave espacial, inclusive até batizada de “Águia de Fogo”, cheia de luzes e telões. Mais ou menos uma hora depois do DJ Elisson entrar, entra também o DJ Juninho, que é mais um showman performático do que um DJ: vai pra frente, subindo na nave, com um daqueles teclados que parecem guitarra, e o teclado solta faíscas, combinadas com faíscas saem das laterais do palco; às vezes ele pega uma bazuca que solta confete e serpentina para o alto.

Complementando as teorias sobre as relações do Tropicalismo, complementar a este show, foi o show da Gaby Amarantos que vi em São Paulo na Virada Cultural, em que ela falou várias frases de orgulho e auto-afirmação, que concordo em número, gênero e grau: “a gente gosta sim, de ser chamado de índio”, “essa tribo tá chegando do estado do Pará”, “Beyonce é maravilhosa, mas eu amo ser a Gaby Amarantos”, essa última a respeito de sua alcunha, Beyoncé do Pará, por causa de sua versão “Hoje eu tô solteira” para “All Single Ladies” da Beyoncé.

Sobre o show da Gaby Amarantos, segue link para ótimo texto de Pedro Alexandre Sanches sobre o show:
http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/musa+do+tecnobrega+gaby+amarantos+festeja+musica+do+norte/n1300080395820.html