Maurício Reis – caminhões, dançarina e música sobre suicídio

A maioria das músicas de Maurício Reis são bregas abolerados e algumas baladas, em que se destacam sua voz forte e interpretação dramática. A temática de suas músicas passa pelo romantismo, caminhões, dançarinas, e até uma letra sobre suicídio. O instrumental, apesar de ser bom, não tem aquela sonoridade dos bregas dos anos 70, puxando um pouco mais para anos 80.

O maior sucesso de Maurício Reis tem o ótimo nome de Mercedão Vermelho. Esse mercedão que a música fala é seu caminhão. “Mercedão Vermelho, tú és minha casa, tú és meu hotel, tú és meu espelho”. Fala sobre a vida dos caminhonheiros, lembrando um episódio do Carga Pesada (lembrei de meu amigo Roger que diz que aguarda ansiosamente toda sexta-feira pra assistir o seriado): “a vida de um caminhoneiro, no Brasil inteiro, é viver a rodar, rodando na Rio-Bahia, na churrascaria, eu penso no Pará, num posto de gasolina, uma linda menina, quis me conquista, lhe convidei para o meu caminhão, pra ver meu coração, junto ao seu badalar”.

“Verônica” é um boleraço, que Maurício Reis canta com sua voz forte e passional. É uma das músicas mais conhecidas do disco. A letra é normal, não tem nada de mais.

Agora “Lenço Manchado” tem uma das histórias mais tristes que eu já vi e tem toda uma história. “Eu já não sei o caminho que devo seguir, seguir. Ela jogou a minha aliança pra depois partir, partir” (Ele repete a última palavra para aumentar a carga dramática) “O lenço branco acenava dizendo pra mim, pra mim / o sonho desfeito, pois sinto no meu peito a dor do meu fim”. É interessante como o “fim” é um tema recorrente nas músicas dos cantores bregas. Como nas tragédias gregas, se queixam de seu destino para Deus: “se existe a felicidade, justiça e amor, amor / porque então Deus me deu um destino de dor, de dor”. E aí, vem um dos trechos mais tristes da música, além dela ter o abandonado, acontece um acidente fatal: “a poucas horas a notícia me deu, me deu / quem eu tanto amava, e me desprezava / na estrada morreu”. Então, o drama aumenta: “pois no local confirmei a notícia que deu-me alguém / nessa estrada maldita foi-se a vida do meu bem / todos estavam com vida, somente meu bem morreu”. E então ele fala sobre morrer, algo muito comum nos bregas: “em desespero eu grito, eu quero morrer meu Deus”. E a conclusão e o porquê do nome da música: “o lenço que acenava manchado ficou, ficou / cobrindo seu rosto, meu grande desgosto, perdi meu amor”.

“Chorar por Amor” eu já tinha ouvido com Sandro Becker, em uma versão melhor que essa.

“A Casa do Sol Nascente” é a versão que o Agnaldo Timóteo fez de “House of the Rising Sun” dos Animals.

“Quem sabe sou eu” fala que às vezes podemos somente aparentar que estamos felizes. Um refrão forte, contundente, junto com um lindo solo no violão, diz: “do meu sofrimento, quem sabe sou eu / da minha amargura, quem sabe sou eu / da minha solidão e da minha dor / quem sabe sou eu”. Uma das melhores músicas do disco.

O refrão da “Aprenda coração” é um dos melhores e exagerados que já ouvi, cantado com uma voz forte, ele diz: “bate coração / pode quebrar minha costela / bate coração / me mate de amor por ela”.

“Locutor”, “Beijo Gelado” e “Onde Está Você” são boas, mas não tem nada de muito especial.

“Preciso Lhe Encontrar” tem um ritmo e um solo de saxofone muito estranhos, que é até difícil de explicar.

“A Partida”, canção suicida explícita, (acho que até no rock é muito difícil encontrar uma música tão explícita sobre o assunto) é um dos pontos altos do disco: “já fiz de tudo / tentei até o suicídio / cortando os meus pulsos / pra chamar sua atenção”, e tem uma rima que é impagável: “fui socorrido por um amigo meu / mas nem no hospital ela apareceu”

“Alguém Me Disse”, começa com um solo de saxofone à lá Dire Straits e Kenny G e é uma linda canção de brega de corno, tanto na letra como na melodia. “Alguém me disse / que tu andas novamente / de novo amor, nova paixão / toda contente”. A mulher retratada é bastante leviana, vai de um amor a outro despreocupadamente: “pouco me importa / que te vejam tantas vezes / e que tu mudes de paixão / todos os meses”. Fica imaginando: “se vais beijar como eu pensei / fazer sonhar como eu sonhei”

“Prece por um pecador” começa com sinos de igreja e bateria de marcha, depois entra uma balada em que ele pede perdão para Deus por ter maltratado e feito sofrer a mulher que ele amava, e pede para ela voltar, mesmo que ele esteja errado. Com o regresso dela, ele promete voltar. Ótima música.

“Estrada da Vida” é aquele clássico inegável que diz: “nesta longa estrada da vida, estou correndo e não posso parar, na esperança de ser campeão, alcançando o primeiro lugar”. Nunca vou esquecer numa gravação que fizemos com a nossa banda, o João cantando gritado esse trecho da música.

Uma das melhores faixas é um pout-pourri que começa com “Professora” que tem um refrão apoteótico que diz: “Professora, eu amo você / professora, nem sei como lhe dizer”; depois vem “Perdão Senhor”, que mostra o drama e a culpa de se estar apaixonado por uma mulher casada; e “Dançarina”, tão boa, que merecia ser uma faixa à parte: “dançarina, me dá o prazer de dançar comigo esta canção, vim aqui me distrair e prometo não sair sem furar o seu cartão”.

A sua coletânea “20 Super Sucessos” tem alguns clássicos como “Mercedão Vermelho”, “Verônica” e “Dançarina”; ótimas músicas como “Quem Sabe sou Eu” e “Aprenda Coração”; a impagável música sobre suícidio “A Partida”; embora tenha algumas músicas menos inspiradas e versões mais fracas de músicas de outros cantores. A sua interpretação e sua voz forte se destacam também. Nota: 8

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Belém, Pará

Tive a grande sorte de ir a trabalho para Belém do Pará, ou seja, passagem e hotel tudo na faixa. Cheguei eu e meu chefe na segunda-feira à noite, não deu tempo de sair, já era quase de madrugada, e teríamos que dormir cedo pois terça-feira logo cedo já teríamos que estar no cliente. Pois então, chegando no cliente, em uma das salas de reunião, já tinha uma vista muito bonita para um rio bem maior do que estamos acostumados a ver por aqui.

Na hora do almoço, o pessoal do cliente nos levou para almoçar no distrito de Icoaraci, onde tem uma bela orla, mas sem praia, com quiosques e restaurantes interessantes, um lugar interessante para passar nas férias. Em uma das fotos eu apareço com gravata, nem combina com o lugar e o calor.

Essa foto é do nome de um motel que eu achei muito engraçado.

À noite fomos passear na Estação das Docas. Uma idéia sensacional, reaproveitar a região do porto, que geralmente é a parte mais suja e perigosa da cidade, reformar e fazer uma região turística, com restaurantes bacanas e passeios de barco, inclusive noturnos, dizem que foi feito assim também em Buenos Aires.

Esta é a vista que eu tinha da janela do meu hotel.

Mais fotos do rio que dava pra ver da empresa.

Todas as ruas e avenidas na cidade são planas como esta.

Na noite seguinte, quarta-feira, fomos na Casa das Onze Janelas, que faz parte do Complexo Lusitânia Feliz, outra idéia muito boa, pois deram uma boa restaurada nos prédios históricos e deixaram bem turístico, algo que deveria ser feito na cidade de São Paulo. Nos fundos da Casa das Onze Janelas, também tem vista para o rio, e um grande navio parado ali.

Na quinta-feira fui provar o famoso tacacá! Falei pro taxista da empresa que eu queria provar o tacacá, ele disse que iria me levar no melhor da cidade, o Vileta! Comentei que no guia falava do tal Tacacá da Dona Maria, ele me disse: “não acredite, o do Vileta é bem melhor”. No que ele estava certo, depois fui provar o da Dona Maria e não chegava aos pés do Vileta. É costume em Belém, depois da tradicional chuva da tarde, que dá aquela refrescada na cidade, que é bem quente, o pessoal vai tomar o tacacá!

O Vileta é uma barraca de rua, e estava bem lotado o lugar, pega-se a ficha no caixa, que tem alguns pastéizinhos pra vender, 1 real cada um. Resolvi provar o pastel e… que delícia!!! Um dos melhores pastéis que já provei! Muito sequinho e crocante e o recheio de carne estava bem saboroso.

Com a ficha fui pedir o tacacá, pedem pra escolher se quer com pimenta ou sem pimenta. Pedi com pimenta, mas não era nada exagerado não. O tacacá é uma das comidas mais curiosas que já comi: é feito de tucupi, que é o caldo da mandioca brava deixado descansar alguns dias (por causa de seu veneno), camarão e folhas de jambu, além de goma de mandioca. Muito saboroso, com sabor meio ácido, e o efeito mais louco, que não sei se é por causa do tucupi ou por causa do jambu: a boca adormece(!), como se fosse anestesia de dentista! Muito louco!

Quinta-feira eu fui fazer um passeio mais power e que eu estava muito ansioso pra conhecer: as famosas festas de aparelhagem de TECNO-BREGA!!! Um estilo muito doido, que é meio que uma mistura de sons de tecno, dance, poperô, com a batida típica do brega e do calypso, duas batidas na caixa, uma batida na caixa, e vocais quase sempre femininos num estilo que geralmente lembra a banda Calypso. Os timbres eletrônicos usados são mais ousados do que se vê, geralmente, na música popular do resto do Brasil, inclusive em parte porque quase tudo no tecno-brega é feito de maneira independente, sem uma grande gravadora por trás. Os artistas inclusive incentivam a “pirataria” por parte dos camelôs, pois sabem que aquilo servirá para divulgar seu trabalho e ele ficar mais conhecido.

Fiz amizade com um vendedor lá na empresa do cliente que curte bastante o tecno-brega, o Shirlon, gente fina. Aí na quinta-feira ele me levou ao Quarup, estava tendo uma balada muito legal de tecno-brega com o Lidersom, de Icoaraci. Onde os djs ficam parece uma nave especial, toda cheia de luzes, e eles costumam falar bastante no meio das músicas, agradecendo, mandando abraços, agitando a galera. O Shirlon conhecia o DJ, aí o DJ começou a falar: “um abraço aí pro Marcelo de São Paulo que veio aqui pra Belém e está curtindo nossa festa”, e aí teve uma hora que o DJ me chamou pra subir lá na “nave”, aí fiquei lá acenando pro pessoal, fazendo o L com os dedos, pois é costume, nas festas, o pessoal fazer com os dedos a letra inicial do nome da festa. Superpop o pessoal faz o S, no Príncipe Negro o pessoal faz o P e por aí vai.

Tinha uma moreninha que eu estava de olho desde o começo da festa, e ela retribuía os olhares, depois que eu subi lá então, logo depois que eu desci, olhei um pouco pra ela, daqui a pouco já estávamos dançando juntos e nos beijando.

Um lance muito louco e muito legal que tem por lá, é que o pessoal geralmente compra pacotes fechados de latas de cerveja, e deixam um balde de gelo na mesa. Tinha uma mesa que tinha 5 pacotes!!! O pessoal lá bebe cerveja demais nas festas! Era mais ou menos três horas da manhã, e eu tomando cerveja pra caramba e com a garota sentada no meu colo, quando o meu amigo veio perguntar se eu já queria ir embora, falei que iria ficar mais um pouco, ele me avisou pra tomar cuidado, pra ficar ligado, mas eu estava ligado, apesar de tanta cerveja. Quando deu umas 5 e meia da manhã, saímos da festa e fomos tomar um tacacá lá no lado de fora. Tomamos um táxi, e fiquei em dúvida se levava a garota pro hotel. A vontade era grande, mas precisava estar umas 8 e meia da manhã no cliente. Resolvi deixar pro dia seguinte o encontro com ela, o que infelizmente acabou não acontecendo.

Na sexta-feira fui trabalhar logo cedo, mas eu estava só o bagaço. Com tanta cerveja na barriga, comecei a sentir aquele revertério, quando então não aguentei e fui chamar o hugo lá no banheiro da empresa, vomitei tudo e melhorei. Agora só precisava lutar contra o sono, imenso, e ainda tinha que resolver um problema muito chato que não conseguia identificar, como fazer upload de arquivos num lance de Sharepoint muito doido que fizeram lá. Infelizmente saí de lá sem conseguir resolver o problema.

Na sexta-feira, que era dia de me despedir do pessoal da empresa, que estendendo também às outras pessoas que conheci em Belém, me trataram muito bem. Tinha uma mulher que disse pra avisar a próxima vez que eu fosse pra Belém, pois ela cria patos em sua casa e ela me cozinharia um pato no tucupi!

Você veja que beleza! Os jovens lá curtem tecno-brega e os mais velhos curtem brega antigo! Liguei o rádio no hotel e que estava tocando? BARTÔ GALENO!!! Sensacional! Estava no lugar certo! Feliz como um pinto no lixo! Os taxistas geralmente tinham umas coletâneas boas com brega de raiz! Um taxista lá me falou o nome pitoresco com que eles chamam as raparigas por lá: CACETEIRA! Não poderia haver nome que as descrevessem melhor!

Na sexta-feira, apesar de estar detonado por causa da festa de quinta, sabia que não poderia deixar de aproveitar a noite paraense! O Superpop é conhecido por ser a melhor festa de aparelhagem de Belém, só que eles estavam tocando em um lugar não muito bom, e realmente, era um lugar mais de periferia, mais humilde, quase um galpão. Era um pouco sinistro, mas nada muito preocupante. Era interessante que as tiazinhas, mulheres de 40, 50 anos olhavam na cara larga e ficavam quase chamando.

Depois fomos para uma verdadeira jornada pelas festas de Belém. Fomos em várias festas, e impressionante como mesmo na festa mais humilde, que eram montadas muitas vezes no que parecia ser a garagem das casas, o som sempre era bom pra caramba, com grandes caixas de som e muitos graves e agudos!

Cheguei no hotel era mais ou menos 6 horas da manhã, e às 8 um outro cara lá da empresa iria passar lá pra levar pra eu conhecer alguns outros pontos turísticos da cidade. O cara ligou, me falando uma desculpa, pois teria que resolver outros problemas. Porém, resolvi aproveitar pois era meu último dia na cidade, apesar de estar quase sem dormir a duas noites, só alguns cochilos.

No sábado de manhã fui no Mercado Ver-o-Peso, onde tem muitos daqueles perfumes paraenses com nomes muito criativos: “chora-aos-meus-pés”, “vence-batalha”, “amansa-corno”, “comigo-ninguém-pode”, perfume pra mulher passar na vagina pra chamar homem, perfume do boto, que tem um pedaço do pênis do boto, que o homem tem que passar no seu próprio pênis, que aí vai chamar mulher, além dos tradicionais patchouli, priprioca, e por aí vai.

No Ver-o-Peso também tem muitos sucos e polpas das mais diferentes frutas: cupuaçu, umbu, açaí, siriguela, cajá, etc. Muitas lembranças pra comprar, muitas garrafas de tucupi, preparados pra fazer maniçoba, uma espécie de feijoada paraense. Muitos peixes.

À tardezinha fui no Jardim Botânico da cidade, que é um grande quarteirão com mata nativa da Floresta Amazônica. Ao andar por ele percebe-se nitidamente a diferença entre a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica, muito mais fechada. Lá dentro tive a sorte de encontrar um bicho-preguiça! Esse bicho sabe viver… hehehehe. Tive até a oportunidade de tirar uma foto segurando o bicho. Além disso, também tinha um peixe-boi e um papagaio que assobiava… o Hino Nacional!!! Esse sim é um papagaio patriota!

Depois fui passear nos museus do complexo Feliz Lusitânia, e alguns próximo dali também, que refletem bem o esplendor de uma época, quando se vivia o auge do ciclo da borracha. Belém e Manaus eram as cidades mais desenvolvidas do Brasil, a capital do Brasil estava quase se mudando para Belém, quando de repente o preço da borracha despencou, e nunca mais a região voltou a ser o que era antes. Num destes museus, li a ótima carta que Mário de Andrade escreveu para Manuel Bandeira a respeito do quanto ele havia gostado de Belém, e eu também estava gostando muito de Belém:

“Manu,

Estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois de nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrace em frente das mangueiras tapando o teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí. Você que conhece mundo, conhece coisa milhor do que isso, Manu?(…) Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É inconcebível o amor que Belém despertou em mim…

Um abraço do Mário.”

Mais tarde, eu estava sentado na Praça da República, que é onde fica o Teatro da Paz, tomando uma água de coco deliciosa, geladinha, uma das mais gostosas que eu tomei, bebi três em sequência, só bebendo e descansando. Aí percebendo como Belém parece uma grande cidade do interior, o pessoal na praça, tranquilo. E lembrando daquela carta de Mário de Andrade. Quanto ao Grand Hotel de Belém, fizeram um grande crime ao patrimônio cultural: demoliram pra construir um hotel de rede convencional.

Teatro da Paz

Como despedida da cidade, fui na estação das Docas contemplar aquele rio gigante, que não dava pra ver a outra margem.

Arroz, pato no tucupi e farinha d'água

Arroz, jambu e tucupi

Molho de pimenta

Sobremesa com brownie quente, crocante e sorvete de buriti, uma fruta muito saborosa

Aqui sou eu comendo um pato no tucupi na Estação das Docas.

Aí então, peguei o avião de volta pra São Paulo, por volta de 3 da madrugada.

Abilio Farias

Link para download de músicas

Abilio Farias envereda pela vertente abolerada do brega, ao estilo do Genival Santos, não ficando nada a dever a este, com um baixo marcante, muito naipe de sopros e uma interpretação passional.

No quesito música de corno, “O Culpado” é campeã, além de corno, é manso; e além de manso, se sente culpado, os versos “eu sou culpado por ela ter me enganado” e “já perdoei o que ela fez fora de casa” dizem tudo, e colocam essa música no panteão dos clássicos do brega.

Ele é também uma espécie de economista do brega, já que em uma de suas mais músicas, “Mulher Difícil, Homem Gosta”, ele diz “essa é a lei, lei da procura e da oferta, onde a pessoa mais esperta, leva vantagem no amor”.

Em outra música, “O Genro Odiado”, ele faz uma divertida, porém trágica, crônica familiar, falando de um personagem presente em quase todas as famílias, a pessoa alcólatra desagradável, com uma letra em que ele faz uma auto-penitência que chega a ser engraçada: “desculpa mulher, resolvi mil desculpas pedir, as palhaçadas que eu promovia, quando bebia, não vais assistir”; “na família eu era o genro que ninguém gostava, viciado só me embriagava, satisfação não trazia a ninguém”.

Abílio Farias também faz a sua homenagem a uma personagem bastante recorrente nas músicas bregas: a cigana; e a de Abílio Farias é uma das mais inspiradas, com um ótimo falsete na hora de falar “ciga-a-na”, e dizendo que “para ter o seu amor, eu vou muito mais além, deixo de ser o que sou, cigana, pra ser cigana também”.

No brega romântico-religioso “Coração Indeciso”, ele apela a Cristo para pedir perdão e para decidir entre o amor de duas mulheres, que ainda tem um solo de trumpete em surdina impagável, que lembra alguém dando risada; o seu exagero se faz presente, dizendo “Cristo, que foste na Terra um mártir, sob império de Pilatos, foste pregado na cruz, quero ouvir de ti um conselho”, “julga-me, julga-me como quiseres, eu amando duas mulheres”, “uma, tem graça, luxo e beleza, produto da natureza, coisa que a outra não tem; e a outra, é despida de encantos, mas mesmo assim gosto tanto”, “meu bom Jesus, com o coração indeciso, não sei de qual eu preciso, para fazer-me feliz”. É bem engraçado que tem horas que ele faz um esforço danado para puxar a voz, para transmitir mais emoção.

Assim como Genival Santos, apesar do seu ponto forte serem os boleros passionais, em alguns momentos deixa a tristeza de lado, para fazer alguns forrós e carimbós animados, como “O Rabo do Jumento” e “Fofoqueira, Encrenqueira” (e ainda fala “ataca Pachequinho”. Maestro Pachequinho é um gênio dos arranjos dos bregas dos anos 70 e produziu nomes importantíssimos como Genival Santos e Bartô Galeno)

Amado Batista

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Amado Batista, apesar de fazer parte da vertente de baladas do brega, não faz como a maioria dos cantores dos anos 70, como Bartô Galeno e Odair José, que tiveram muita influência de Roberto Carlos. Amado Batista, pelo contrário, criou um estilo próprio dentro da vertente de baladas do brega, tendo alguns artistas que foram influenciados pelo seu estilo, como Cristiano Neves, por exemplo. Uma diferença entre os dois estilos é que o estilo de cantores como Bartô Galeno é bem mais passional do que o de Amado Batista, mais pop, o que talvez explique a maior aceitação do Amado Batista, pois muitas pessoas reclamam do fato das músicas de cantores como Bartô Galeno serem muito tristes. Diziam que o Amado Batista era quem vendia mais discos no Brasil, vendendo até mais do que Roberto Carlos, o que pode até ser verdade, mas tente achar algum nordestino que não tenha ao menos um disco do Amado Batista em casa, é uma tarefa difícil.

Amado Batista criou verdadeiros clássicos do brega, que estão entre as músicas mais conhecidas do estilo, que quase todo mundo conhece e que sabe cantar pelo menos o refrão. Criou alguns dos solos mais emblemáticos do estilo, o solo de “Meu Ex-Amor” corresponde ao “Come as you Are” do brega, com um solo muito simples, feito nas notas graves da guitarra, imediatamente reconhecível, e que leva a maior parte do pessoal se manifestar de prontidão, e ainda tem aqueles casos raros que as pessoas cantam o solo, como em “Secretária”, só lembro de algo parecido no show do Deep Purple, em que o público canta o solo da “Black Night”. Ele faz pequenas pérolas do pop no brega que faz, com músicas muito simples, em que o supérfluo é cuidadosamente cortado, ficando somente o essencial. Além disso, muitas tem um parentesco próximo com o rock e o punk no que diz respeito aos três acordes presentes na maioria delas.

Entre os seus maiores clássicos estão “Princesa” (“ao te ver pela primeira vez, eu tremi todo”, “princesa, a deusa da minha poesia, ternura da minha alegria, nos meus sonhos quero te ver, princesa, a musa dos meus pensamentos, enfrento a chuva e o mau tempo pra poder um pouco te ver”), “Serenata” (“a lua descia do céu, eu cantando você acordava, com os olhos cheios de amor, abria a janela e me beijava, depois de te dar uma flor, quase chorando eu ia embora”) e “Seresteiro das Noites” (“fui seresteiro das noites, cantei vendo o alvorecer, molhado com os pingos da chuva, com flores pra te oferecer”), em que um romantismo nostálgico dá o tom.

Mas o mais estranho é que, talvez o que seja o seu maior clássico, seja algo extremamente triste e mórbido, falando de hospital, de sala de cirurgia e de um parto trágico, em que a mulher e o filho morrem na mesa de operação, a música se chama “Amor Perfeito (O Fruto do Nosso Amor)”, apesar do pessoal conhecê-la por “No hospital, na sala de cirurgia”. E igualmente estranho é que, apesar da música falar destes temas, ela é extremamente contida e minimalista, beirando a indiferença e a falta de emoção. Talvez esse contraste fez a música ser mais palatável, pois é difícil imaginar que quase todo mundo saiba a letra de uma música que tem versos como “Nosso Senhor para sempre te levou, nem ao menos me deixou, o fruto do nosso amor, aquele filho seria nossa alegria, eu senti naquele dia, ser um pai, ser um senhor”, e o refrão, sem dúvida nenhuma um dos mais conhecidos do brega também não fica atrás: “no hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via, você sofrendo a sorrir, vi seu sorriso aos poucos se desfazendo, então vi você morrendo, sem poder me despedir”. Ele parece nutrir uma atração por temas pesados como este, já que em uma outra música, “O Acidente”, que tem um ritmo e melodia até que animados, ele fala da mulher que morre em um “acidente, tão de repente, acaba tudo, o amor que se tem”.

Ele tem muitas outras ótimas músicas muito românticas, nem tão conhecidas, como “O Ônibus”, que tem um refrão que pode levar às lágrimas por descrever com perfeição a dor da saudade de amar alguém que mora distante ou que vai para longe, falando da tristeza em saber que ela vai embora: “hoje eu vou ficar muito magoado, por uma coisinha linda, ela vai partir pra longe daqui, na tarde que finda”, depois falando da hora da despedida: “ao nos despedir, com um forte abraço e um beijinho de adeus, vou esconder meu rosto, pra não ver seus olhos, fitando os meus”, e aí vem a tristeza consumada, o ônibus já sumiu e ficaram só as lembranças: “quando o ônibus, sumir na estrada, lágrimas vão rolar dos olhos seus, e olhando a paisagem, em mim vai pensando, gotinhas molhando o rostinho seu”. Além dessa tem também a que ele fala “ela arrancou um pedaço de mim, e foi meu coração”.

Tentando se manter atualizado, sempre busca fazer canções relacionadas aos assuntos do momento e novidades, como em “Secretária”, em que fala do medo de ser confundido com um assédio sexual, “Amado@.com”, em que apesar da grafia errada, ele fala de internet. Como um amigo reparou, “Vidas na Contramão” é quase que um “Eduardo e Mônica” do brega, mostrando as diferenças dos dois em um par romântico: “gosto de música lenta, ela só curte rock, não usa vestido, só usa short”, “se eu me encontro em casa ela deita e rola, ela só toma whisky, eu coca-cola”.

Alipio Martins

Link para download do disco

Alypio Martins faz parte da vertente mais humorística e debochada do brega, ao invés de se aprofundar em lamentos românticos, prefere fazer letras de sacanagem com duplo sentido, à moda do Genival Lacerda.

Talvez o refrão mais famoso que ele compôs seja aquele que é um dos maiores hinos dos cornos que o Falcão sabiamente regravou: “Lá vai ele, com a cabeça enfeitada, sem saber que a sua amada, lhe traiu com outro alguém” (pô, se traiu, é lógico que foi com outro alguém! Essa vai pra coletânea dos maiores pleonasmos da música brega).

“Maria Antonieta” parece ser o embrião do que viria a ser um dos maiores clássicos dos bregas de duplo sentido, “Julieta” (“julieta-ta-ta, tá me chamando”), onde tem versos sacanas e hilários como: “sua mãe toca trombone, e seu pai toca corneta”.

Uma das músicas que já o nome é um dos trocadilhos mais infames da história da música (isso é um elogio, claro), é a “Oh Darcy”: “se meu time não ganhar / oh darcy, oh darcy / se o patrão me despedir / oh, darcy, oh, darcy / se você não voltar pra mim / oh darcy, oh darcy”, e pra ajudar, ainda tem choro de bebê na música (totalmente clichê) e uma voz com aquele eco bem brega: “exclusiva” (esse então nem se fala… hehehehe)

Outras música com duplo sentido é a “Pegue na Boneca” (“se você apertar, ela pode chorar”).

Alypio Martins também foi politicamente incorreto, com uma música que se fosse lançada hoje, provavelmente seria alvo das feministas ou até fosse proibida: “Vou começar a bater em mulher”. A música fica mais engraçada por conta do ritmo, que é um samba bastante animado; a letra, “nelsonrodriguiana” e impagável, fala: “vou começar a bater em mulher, elas adoram ser maltratadas, elas só gamam se um dia apanhar, se estão certas, se estão erradas, Nelson Rodrigues é quem vai nos ensinar”.

Em uma das músicas ele fala de sua lógica bastante inusitada para fugir do compromisso com alguma mulher: “meu coração eu não dou, porque não posso arrancar, arrancando eu sei que morro, e morrendo não posso amar”.

Por ele ser do Pará, muitas das suas músicas tem como base rítmica o carimbó; aliás, o ritmo tem bastante destaque em suas músicas, inclusive algumas tendo uma levada extramemente suíngada, como é o caso da música “Dor de Cotovelo”, que tem um ótimo arranjo de baixo, bateria e guitarra wah-wah. Na inacreditável música “Piranha”, num ritmo que é tipo um carimbó suíngado, ele esquece disso e grita como se fosse um rock: “Piranha, é um peixe voraz, do São Francisco / não, não perdão, Rio São Francisco / não, não Amazonas / nosso grande rio, Amazonas / eu não faria uma canção / nem tocaria o meu violão / para um peixe qualquer / (carregando no grito agora) o diabo que carregue / quem disser que não é / piranha”. Outras com um ritmo forte, com letras falando sobre animais em letras beirando o infantil, mas que não deixam de ser ótimas: “Rebu no Galinheiro” e “Tatu da Velha Noca”.

Outra característica comum em muitos artistas bregas são as músicas que exaltam seu estado ou região, e convidando o ouvinte a viajar e conhecer, e neste caso, ele acerta em cheio, dá uma vontade danada de ir conhecer o Pará: “se você já tomou chimarrão, torresmo ou tutu de feijão, falta provar tacacá”, “se você já entrou num forró, ou castiga um samba legal, vai adorar dançar carimbó”, “o açaí que estou comendo tem aquele gosto bom que outro o Brasil não dá”. Confira as músicas “Casca de Coco” e “Meu Bem do Pará”.

É interessante que algumas vezes ele faz músicas românticas de dor de corno que ao mesmo tempo são safadas, como “Amor ao telefone”, “você no meio da noite me ligava, me chamando pra fazer amor por telefone, a gente se amava, a gente gozava, mas tudo acabou”.

Outras músicas com nomes nada sutis: “Pistoleiro do Amor” (essa com um clima meio faroeste picareta, com assobio e tudo), “Tira a Calcinha”.

Link para download do disco

Atenção: o link não se refere ao disco “Raízes Nordestinas” ao qual a maioria das músicas comentadas aqui se refere.

Azulão

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Uma das melhores coisas do Ratinho ter alcançado o sucesso que alcançou foi que uma gravadora grande teve a coragem de lançar um disco inteirocom músicas cantadas por um artista como Azulão. Sorte nossa, que tivemos o privilégio de ter um disco com oito músicas do Azulão, uma melhor que a outra! O que é a letra da “Casa Redonda”? (veja mais abaixo). Mas que o disco encalhou feio, encalhou (o meu eu comprei por 2 reais). Eu imagino que as pessoas já não aguentavam ele repetir todo dia aquele refrão repetitivo “solta o azulão, solta o azulão, solta o azulão, PAIXÃO, solta o azulão”.

Quando o Azulão cantava essa música no Ratinho, dava pra ver, que apesar dele ter aquele vozeirão típico dos cantores negros, ele tinha um ritmo todo duro, pra cantar e pra dançar, ficando muito engraçado. Uma das coisas mais impagáveis foi um dia que passou o clipe que fizeram pra música, ele repetindo aquele refrão a música inteira, no estúdio, na banheira com uma gostosa, voando (com umas asas azuis, num efeito muito tosco). A letra tem uma variaçãozinha, que muita gente nem conhece, e tem um certo duplo sentido: “tanto tempo engaiolado, ele até perdeu o jeitão, quando avista sua amante, volta logo pra prisão” (volta o refrão)

Mas o seu disco veio pra provar que o Azulão não é só isso, não é um artista de uma música só, e nos brindou com uma música que tem uma letra psicodélica da melhor estirpe: “Casa Redonda”. A letra é de uma claustrofobia angustiante, além de também poder causar uma sensação de vertigem, por tanto rodar: “eu entrei numa casa redonda / e comecei a rodar / eu rodava, rodava, rodava / e não saía do mesmo lugar”. Dizem que o chá de santo daime às vezes causa a alucinação de imaginar que se está numa casa redonda; e no encarte diz que foi o próprio Azulão que compôs essa pérola… A dúvida que fica é: será que o Azulão já tomou Santo Daime? Mas a psicodelia não pára por aí, porque ele diz que quando estava perdido e desesperado ele começou a ouvir uma voz: “garoto, eu vim te salvar”. Pra não perder o costume, o refrão circular, literalmente, é repetido insistentemente: “eu entrei numa casa redonda, e comecei a roda, eu rodava, rodava, rodava, e não saía do mesmo lugar”. Pô, deve ser muito legal estar numa casa redonda. 🙂

“A Pulga (Pata Pata)”, é a versão brasileira infantil de uma música de uma cantora que eu acho que é africana, até que bem conhecida: “tá com pullllga na cueca (ele canta prolongando os éles), já vi vou catar”.

“A Dança do Azulão” é tão genial que estávamos com planos de colocar essa música de playback num show e ficarmos só dançando. Para as pessoas que não sabem dançar (como nós), e ficam frustradas, essa é a salvação, pois é uma das danças mais simples que podem existir (até mesmo porque o Azulão é todo duro ao dançar). Veja como é fácil: “vamos a dançar / a dança do azulão / um passo pra frente / um passo pra trás / levantar as mãos / vamos a dançar”. Essa é a letra inteira da música. Repare como ele castiga o português: “vamos a dançar”.

“Me Ajude Gente” dá uma idéia de como deve ter sido difícil para o produtor conseguir gravar este disco, tendo em vista as limitações do Azulão, tanto ritmicamente, quanto melodicamente e na pronúncia, mas que são compensadas por todo seu carisma. A música começa com ele tentando umas duas vezes, aí o Azulão fala: “Errei”. Aí o produtor fala: “Ê Azulão. Vamos lá, mais uma vez”, aí a música vai. A música é um pagodão.

A manjada “Macarena” também aparece aqui, mas numa versão que tem o que nenhuma outra tem: o carisma e o jeito de cantar de Azulão. Não sei se na original tem essa parte da letra, em que ele canta: “Macarena, é uma dança diferente, que remexe e alucina toda gente, tem um toque tropical, tem magia sensual”, com ele falando um éle sutil, que vai sumindo, impagável. Impagáveis também são as risadas indefectíveis dele, todas meio fora de tempo, e imprevisíveis em que momento vão aparecer.

“Clarinha” é uma bela homenagem à sua filha. “Ê Clarinha, ê Clarinha. Ê criança. Seu nome é Clara, mas nós tratamos de Clarinha, quando eu chego em casa, bem à tardezinha, ela vem correndo, vem da sala pra cozinha”.

“Parabéns do Azulão” fecha com chave de ouro essa obra-prima. “Parabéns pra você, por comprar meu cd”.

Depois ainda tem algumas versões pra playback, se você quiser treinar pra cantar igual ao Azulão.

Uma lenda, um mito, o Azulão desapareceu misteriosamente da televisão, sem dar mais notícias. O Ratinho nunca mais falou dele. Ouvi gente dizer que morreu, tomara que não. Talvez tenham confundido com um outro Azulão, nordestino, que toca forró. Pelo menos temos o privilégio de ouvir este cd. Porque é quase certeza que não vai ter um segundo.